sábado, 20 de dezembro de 2008

De Caminhos

O homem que acha que os segredos do mundo são para sempre insondáveis vive no mistério e no medo.
A superstição arrasta-o para o abismo.
A chuva acabará por esfarelar os feitos da sua existência.
Mas do homem que atribui a si mesmo a tarefa de isolar da trama do cosmos o fio da ordem podemos dizer que, com essa simples decisão, tomou as rédeas do mundo nas suas mãos e só dessa forma conseguirá ditar os termos do seu próprio destino.

Cormac McCarthy

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Há dias que são como espaços preparados para que tudo doa.

Roberto Juarroz

Sabes

vesti-te de palavras
com o perfume da poesia
só para te despir na leitura

José António Gonçalves

Simplesmente Amar (te)

Nao importa o que se ama.
Importa a matéria desse amor.
As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor.
As palavras são um principio - nem sequer o principio.
Porque no amor os principios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma historia que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida.
Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor.
O sujo, a luz, o espero, o macio, a falha, a persistencia.

Inês Pedrosa

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Atrás Do Tempo

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

Fernando Assis Pacheco

Desvios

As pessoas não têm consciência de que quando se empenham inteiramente em servir o sistema e fazem de peça útil, comprometem talvez o melhor de si próprias.
Não chegam a desfrutar, do cume a que poderiam ter chegado, a dimensão para que foram feitas.

António Alçada Baptista

domingo, 14 de dezembro de 2008

Prisão

Estou a ouvir-me gritar dentro de mim,

mas já não sei o caminho

da minha vontade

para a minha garganta.

Fernando Pessoa

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Mário Cesariny

sábado, 13 de dezembro de 2008

Mesa Dos Sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.
Alexandre O'Neill

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Notas De_Vida(s)

Procuro que a minha vida vá tendo a musicalidade duma constante pergunta e nunca o monolitismo paralisante duma conclusão.
Estou absolutamente certo de que nem eu nem ninguém anda com a verdade no bolso, mas estou certo também de que dela irremediavelmente nos aproximamos pelas coisas que descobrimos e pelas resistências que vencemos.

António Alçada Baptista

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Chama-me

Abro-te as portas querendo
a tua luz
numa sede de ti que não se acalma
Não me negues a água
que mata a minha sede
Desejo o teu incêndio
queimando a minha alma

Maria Teresa Horta

Poema

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

(in)Tempo(ral)Idade

Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Impasse

Tão longe e aqui mesmo
te sinto,
tão longo o abraço
que não dou

tão gélido o toque
das palavras
de encontro ao peito
aberto, indefeso…

tão estreito o caminho,
tão fundo o abismo
diante dos olhos exaustos
à procura de abrigo…

Ângela Santos

domingo, 30 de novembro de 2008

Responder-te

perguntas-me
por que não escrevo
o mar

explico-te que
no seu ir e vir
constante
de tons e cores
ele é já
um poema
Luís Ene

Só tu

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

Eugénio de Andrade

sábado, 29 de novembro de 2008

Guarda-me

e de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas
porque as palavras certas estavam todas
em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor

Alice Vieira

Vôo ou Quando As Palavras Nos Beijam

Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam.
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, as palavras voam.
Voam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.
Oh! Alto e baixo em círculos e rectas acima de nós, em redor de nós as palavras voam.
E às vezes pousam.
Cecília Meireles

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sofrer-te

Quem nunca sofreu por amor nunca aprenderá o que é amar.
Amar é o terror de perder o outro, é o medo do silêncio e do quarto deserto, de tudo o que se pensa sem poder falar, do que se murmura a sós sem ter a quem dizer em voz alta.
É preciso sentir esse terror para saber o que é amar.
E, quando tudo enfim desaba, quando o outro partiu e deixou atrás de si o silêncio e o quarto deserto, por entre os escombros e a humilhação de uma felicidade desfeita, resta o orgulho de saber que se amou.

Miguel Sousa Tavares

Código (Con)Sentido

Não despertes o que não podes calar.

José Tolentino Mendonça