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terça-feira, 9 de junho de 2009

Mais Um (Dia)

Os dias longos, as noites no meio do mar.
Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo.
E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento.
Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo.
Desabituei-me dos milagres.
Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações.
Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-de-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe.
Posso especular sobre a revolução, evidentemente.
Que revolução?
A revolução, claro.
Pois é: a minha revolução não dá um passo.

Herberto Helder

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Noite de Insónia (2:11 am)

As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.

É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder