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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Ana_Tu_Mia

teu corpo
dilui-se
nos ossos da página,
contamina
as cartilagens das sílabas
Al Berto

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mata-me

quero morrer
com uma overdose de beleza
Al Berto

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Preludio

Os espelhos ainda nos devolvem a candura do que somos,
mas
também anunciam a cinza que sepultara os corpos,
algures,
num esquecimento e
numa dor obscura de nós próprios.

Temos de aprender a subjugar o destino
à nossa vontade.
Ainda é possível mergulhar nos espelhos e
roubar-lhes os vestígios felizes de nossos rostos.

Ainda é possível apagar as dolorosas manchas da memória e
recuperarmos o rosto da alegria que nos pertenceu.

É esse o nosso rosto, mesmo que seja morto.

Regressa.
Regressa ao escorrer dos dedos enrolados no sexo,
ao riso matinal dos corpos saciados,
às nocturnas conversas das esplanadas,
aos jogos de sedução,
aos engates,
ao murmúrio das vozes,
à ofegante trepidação da manhã,
regressa... regressa.

Porque as palavras não te substituem e
estão cheias de pústulas no coração das sílabas.

Regressa e
oferece-te à preguiça triste de quem continua aqui,
vivo,
sorvendo a espiral da sua própria ausência.

Regressa, peço-te, mesmo antes de partires.

Regressa à voracidade do desejo, e
à incendiada paixão dos nocturnos tigres.

Al Berto

domingo, 26 de julho de 2009

De mim

Sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir.
vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite suportável,
para que a morte nada encontre em mim quando vier.
Al Berto

sábado, 20 de junho de 2009

Profunda Maresia

dançamos à roda dum mastro,
saia em papel de seda bordada com búzios...
uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
rodopias,
e os teus amores são relembrados pela noite adiante
espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves,
junco molhado e o mar enche-se novamente de pássaros,
embarcações semelhantes a beijos que nos percorrem de alegria

Al Berto

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Noite de Insónia (4:12 am)

saiu para a rua.
embrenhou-se na espessura da noite,
amou e traiu,
seduziu e deixou-se seduzir,
morreu um pouco todas as manhãs
e nunca mais regressou ao que tinha sido.

Al Berto

Noite De Insónia (1:40 am)

tento escrever um verso.
tenho vontade de sair por aí, vaguear pelas ruas, mas vou ficar aqui, fechado na casa sitiada pela noite, perdida algures onde a não posso sequer inventar.
meio deitado, imagino o mar ao fundo das ruas, os barcos como fantasmas adormecidos no areal, finjo que não posso mexer-me. escrevo ou desato a gritar, tanto faz

Al Berto

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Reticências (s)em Tempo


Sinto-me
como
se
tivesse
cegado
por
excesso
de olhar
o mundo.

Al Berto

Como Uma Dor

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã,
as pedras acendem-se por dentro,
reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos,
ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

Al Berto

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sem Título e Bastante Breve

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
Al Berto

terça-feira, 3 de março de 2009

Acerto Da Hora



Desejava morrer
num lugar público,




sentado num banco de jardim e
esperar a morte ao amanhecer.




Al Berto

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Opacidade

No centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar.
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja sempre absurdo morrer. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lí­rio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho:

"Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."


Al Berto

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Simples

A mim,
basta-me o espanto da flor que murcha
quando,
no mesmo ramo,
outra flor expande as pétalas ao sol.

Al Berto

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ofício de Amar

Já não necessito de ti
Tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
Tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
De outras galáxias, e o remorso.....

.....um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.

Al Berto

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Nocturno

Conheço cada vez melhor aquilo que de mim se despede e não regressa, e aquilo que nasce algures onde já não estou.
Perdi o controle dos meus pensamentos, tudo se confunde num sem tempo onde a minha lucidez, a minha razão, são outras.
(...)
Não é possível roubar à vida um corpo nocturno.
É demasiado escuro, pesado, e mal se vê e pressente.
Só a luminosidade solar é capaz de o devorar, de o apagar.
Será por excesso de luz que deixarei de ser.
O meu corpo nocturno tem séculos de existência mas, mal desponta a madrugada, desgasta-se numa fracção de segundo.
Tudo vem ao chamamento.
Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos.
Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.

Al Berto

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Um nome

Vou guardar as tuas mäos na paixäo que tenho por ti,
mas näo te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos
amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixäo, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...

Al Berto

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Truque Tóxico

Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómito
isto é : drogo-me.....

....abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve,

abro a caixa dos pesadelos.....
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada

....outra caixa, azulada, abro-a
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca
tenho medo durante a noite
alguém se lembrou de atirar fora a caixa......

....luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos
FRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMA
NÃO INCLINAR
TIME TO BUY ANOTHER PACKET

O quarto está completamente mobilado de corpos
explodem caixas, o sangue alastra
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos
de pin-ups obscenas

....fendas de bolor no espelho
o reflexo do corpo arde como uma decalcomania
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua
falamos baixinho
não se ouvem mais barulhos de cidade
o sono e o cansaço subiram-me á boca

....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos
e devastamos, devastamos.....
Al Berto

sexta-feira, 25 de julho de 2008

solidão

cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só,
muito só,
não tenho a quem a deixar

Al Berto