quinta-feira, 21 de maio de 2009

Reticências (s)em Tempo


Sinto-me
como
se
tivesse
cegado
por
excesso
de olhar
o mundo.

Al Berto

Como Uma Dor

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã,
as pedras acendem-se por dentro,
reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos,
ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

Al Berto

sábado, 16 de maio de 2009

Quando Nós...

Era o silêncio sobre a terra.
O mundo estava preparado.
No seu lugar, cada objecto esperava o início.
O sol esperava.
O mundo estava preparado e suspenso.
Nós, dentro dos homens, depois das nuvens, sabíamos como tudo ia acontecer.
O nosso olhar passava sobre os campos, rente à terra, atravessava os ramos das árvores e o mês de Julho.
No silêncio, distinguíamos as palavras que, durante um momento futuro, se iriam erguer como uma construção de cinza.
Nos objectos, distinguíamos os gestos que, a partir de um momento futuro, iriam alterar a sua ordem.
Era o silêncio.
A terra esperava passos.
O sol esperava olhares para iluminar.
O tempo, Julho, existia na distância entre os objectos suspensos.
Nós assistíamos à espera do mundo.
A terra sabia.
O sol sabia.
O tempo sabia.
Nós sabíamos.
Os homens não sabiam.
Ele e ela não sabiam.


José Luís Peixoto

sábado, 9 de maio de 2009

... e havia uma força cega

No poema:
Era um verbo de sangue para o silêncio arder.

Daniel Faria

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Desvario

Passar-te estas palavras assentes
na promessa de nada comunicarem.
Aceitas tão pesado desafio? Voz
sem uma pessoa dentro: numa cidade
grande de tantas heranças, tão poucos
amigos, que mais havia a esperar?
Apenas a derradeira ousadia
do corpo, a pausa de pensar um outro
desejo. Não é preciso inventar
a distância, cada um para seu lado
a ir ter com as coisas que conhecemos
há tanto tempo. Dou contigo na única
atenção, ficaria aqui muitas horas
só a olhar a calma que pões em tudo.
E tudo foi breve, as semanas
já correm sobre o nosso esquecimento.
Dizer quem és vai ficar sempre
adiado, procuro o doído desejo
da repetição.

Helder Moura Pereira

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Aqui

Nem os dias longos me separam da tua imagem.
... Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer...

Nuno Júdice

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A Invenção Do Amor ou A Pandemia

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios
de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou
A TV anuncia
iminente a captura
A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos *

Daniel Filipe
__________________________________________________________ *Afinal a fuga fomos nós...
E.S.

Apenas porque...

Na lista dos teus fins venho no fim
de uma página nunca publicada,
é justo que assim seja. Embora saiba
mexer palavras, e doer de frente,
e tenha esse talento conhecido
de acordar de manhã, dormir à noite,
e ser, o dia todo, como gente,
nunca curei, como previa, a lepra,
nem decifrei o delicado enigma
da letra morta que nos antecede.
Por muito te querer, talvez pudesses
dar- me um lugar qualquer mais adiante,
despir-te de pudor por um instante
e deixá-lo cobrir-me como um manto.
António Franco Alexandre

domingo, 26 de abril de 2009

Prenúncio

De ser o som do amor tão enleado
em cristalinas veias,
em palavras suaves, em recantos
que são gestos bem vivos e são letras
de irradiante lume,
havia este destino que era um lábio
a arder na vastidão de descobrir
o lugar onde ardia este esperar-te.

João Rui de Sousa

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nós de nós

De esperas construímos o amor intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos
No mais profundo silêncio. E, sem palavras,
Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida.

Joaquim Pessoa

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sem Título e Bastante Breve

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
Al Berto

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ás vezes

ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

O destino

plantou-me aqui
e arrancou-me daqui.
E nunca mais as raízes
me seguraram bem em nenhuma terra.

Miguel Torga

sexta-feira, 6 de março de 2009

(Im)Possibilidade

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

Mia Couto

terça-feira, 3 de março de 2009

Acerto Da Hora



Desejava morrer
num lugar público,




sentado num banco de jardim e
esperar a morte ao amanhecer.




Al Berto

domingo, 1 de março de 2009

Permuta

Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu.
E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei.

Miguel Esteves Cardoso

Sorrow

Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,
abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.
Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,
os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.

Francisco José Viegas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Balanço (-te)

Na sua inocência,
........................as coisas por nós perdidas




.............................n
......d...................................ç............................m
...............a..........................................a




Mário Rui de Oliveira

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Hypócrísis

O riso, o mal, o orgulho, a loucura, hão de surgir, alternadamente, entre a sensibilidade e o amor pela justiça e servirão de exemplo à estupefacção humana: cada um se reconhecerá aí, não tal como deveria ser, mas tal como é.
Isidore Ducasse



__________________________________________________________
hipocrisia: do Gr. hypocrisia, forma poética de hypócrísis, desempenho de um papel no teatro, dissimulação. s. f., impostura, fingimento; manifestação de virtudes ou sentimentos que realmente se não tem.
(fonte: Priberam)