sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Recordar (e)ternamente

A precisão das memórias não é obrigatoriamente uma coisa boa. O coração é muito mais fiável, porque guarda, maioritariamente, as coisas que nos fazem bem; as más vai-as deixando cair, à medida que as expõe, seja à conversa dos amigos seja à dos amantes.
Possidónio Cachapa

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Ternos sentidos

Ó doce perspicácia dos sentidos!
Visão mais táctil que apressados dedos
sempre na treva tropeçando em medos
que só o olfacto os ouve definidos!

Audível sexo, corpos repetidos,
gosto salgado em curvas sem segredos
a que outras acres e secretas - ledos,
tranquilos, finos, ásperos rangidos -

se ligam, mancha a mancha, lentamente...
Perfume túrgido, macio, tépido,
sequioso de mão gélida e tremente...

Vago arrepio que se escoa lépido
por sobre os tensos corpos tão fingidos...
Ó doce perspicácia dos sentidos

Jorge de Sena

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Dom

O aborrecimento tira-nos tudo, até a coragem de nos matarmos.

Stendhal

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Farto

Eu tenho assim este ar calmo. Mas sempre precisei fazer um grande esforço para ser apenas normal. Mas agora até isso é demais.

Albert Camus

sexta-feira, 25 de julho de 2008

solidão

cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só,
muito só,
não tenho a quem a deixar

Al Berto

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A força da auto-sugestão

A proclamação do nosso mérito é um exercício excelente para aumentar e mesmo para adquirir efectivamente esse mérito.

Eça de Queirós

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Poesias Inéditas

A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.

Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
A primavera floria
Sem que houvesse primavera.

Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?


Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de maio de 2008

As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 11 de maio de 2008

Eternos Sentidos

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?
E Te Amando Sigo...até Onde? Onde a Fé na Fantasiosa Esperança Permitirá Crêr que a Vida É Contínua e Infinita E Terei Sempre às Mãos o Tempo da Eternidade.


Fernando Pessoa

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Não amar

Nunca amamos ninguém.
Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de alguém.
É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isso é verdade em toda a escala do amor.
No amor sexual buscamos um prazer nosso, dado por intermédio de um corpo estranho.
No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa.


Fernando Pessoa