terça-feira, 14 de abril de 2009

Sem Título e Bastante Breve

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
Al Berto

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ás vezes

ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

O destino

plantou-me aqui
e arrancou-me daqui.
E nunca mais as raízes
me seguraram bem em nenhuma terra.

Miguel Torga

sexta-feira, 6 de março de 2009

(Im)Possibilidade

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

Mia Couto

terça-feira, 3 de março de 2009

Acerto Da Hora



Desejava morrer
num lugar público,




sentado num banco de jardim e
esperar a morte ao amanhecer.




Al Berto

domingo, 1 de março de 2009

Permuta

Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu.
E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei.

Miguel Esteves Cardoso

Sorrow

Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,
abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.
Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,
os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.

Francisco José Viegas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Balanço (-te)

Na sua inocência,
........................as coisas por nós perdidas




.............................n
......d...................................ç............................m
...............a..........................................a




Mário Rui de Oliveira

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Hypócrísis

O riso, o mal, o orgulho, a loucura, hão de surgir, alternadamente, entre a sensibilidade e o amor pela justiça e servirão de exemplo à estupefacção humana: cada um se reconhecerá aí, não tal como deveria ser, mas tal como é.
Isidore Ducasse



__________________________________________________________
hipocrisia: do Gr. hypocrisia, forma poética de hypócrísis, desempenho de um papel no teatro, dissimulação. s. f., impostura, fingimento; manifestação de virtudes ou sentimentos que realmente se não tem.
(fonte: Priberam)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

|Entre|tanto|

.
.
.
Entre

...........nós

......................e

............................as

.................................palavras,

.................................................. o nosso dever falar.





Entre

...........nós

.....................e

...........................as

.................................palavras,

.................................................o nosso querer falar.


Mario Cesariny

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

(Des)Encontro


Uma mão fechada, em frente a mim, dormitava sobre a
mesa. Voltou-se subitamente e abriu os dedos como se me
pedisse para lhe ler a palma.
Mas, enquanto lhe observava as linhas saltou subitamente
e deu-me uma bofetada.



Comecei a chorar...



E essa mesma mão levantou-se e limpou-me as lágrimas do rosto...


Russell Edson

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Eu Sei

... existes.



Por isso os deuses não existem, a solidão não existe.



Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te...



numa outra maneira de habitares em
todas as palavras do meu canto.

Joaquim Pessoa

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Opacidade

No centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar.
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja sempre absurdo morrer. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lí­rio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho:

"Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."


Al Berto

sábado, 10 de janeiro de 2009

Tu e Eu

"Paga-me um café e conto-te a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu ,não,nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas ,acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares o teu amor"

José Tolentino Mendonça

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ausência...

Estou mudo porque todas as palavras te escutam.

Vasco Gato

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Falavam-me De Amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Religião (ou Reflexão)

As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.

Fernando Pessoa




sábado, 20 de dezembro de 2008

Em Caminhos

Eu, quando sou eu,
É apenas por distracção.
E apenas para ser ninguém
me sobeja vocação.

Mia Couto

De Caminhos

O homem que acha que os segredos do mundo são para sempre insondáveis vive no mistério e no medo.
A superstição arrasta-o para o abismo.
A chuva acabará por esfarelar os feitos da sua existência.
Mas do homem que atribui a si mesmo a tarefa de isolar da trama do cosmos o fio da ordem podemos dizer que, com essa simples decisão, tomou as rédeas do mundo nas suas mãos e só dessa forma conseguirá ditar os termos do seu próprio destino.

Cormac McCarthy

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008