domingo, 14 de setembro de 2008

O Meu Amor Existe

O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Separou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe

Jorge Palma


Eterno Retorno

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro.

Ruy Belo

sábado, 13 de setembro de 2008

Amor

Ao dizer que te amo é
como se as portas da vida se
abrissem, e uma luz nascida de dentro
do desejo de ti me trouxesse
até mim. Mas ao dizer
que te amo, são as portas
da noite que se fecham, e é
contigo que espero a última
madrugada, onde entre
mim e ti
nenhumas portas existam.

Nuno Judice

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Faltas-me

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência das águas
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.

Mia Couto

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Caos


Tão pouco do que pode acontecer acontece...
Salvador Dali

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Confluência

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Álvaro de Campos

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Crua derrota


De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico.
São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável.

Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres.


Vergílio Ferreira

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Beber-te

Sei que morro de sede mesmo que não te afastes, sei que não há remédio... mas que valeu a pena...

David Mourão Ferreira

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Um nome

Vou guardar as tuas mäos na paixäo que tenho por ti,
mas näo te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos
amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixäo, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...

Al Berto

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Inglória

(...) quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver.
José Saramago

O nosso lugar

Entre nós, não havia distância poque eramos atravessados um pelo outro. Faziamos parte de um lugar infinito que era igual em cada um de nós. Não eramos fronteiras dentro desse lugar, porque esse lugar não tinha fronteiras. Esse lugar era infinito. Esse lugar era o amor nos nossos olhos.

José Luis Peixoto

Todo o tempo**

O tempo que passo procurando as palavras exactas do inexacto momento em que te ouvi pela primeira vez.
O tempo, infinito tempo, em que te abracei.
O tempo das memórias.
O tempo da tua voz.
O tempo, inacessível tempo, dos nossos beijos.

Inatingível tempo do Nós.

O tempo das memórias fingidamente esquecidas do futuro tempo sonhado.
O tempo das lágrimas, queridas lágrimas.
O tempo da incerteza.
O tempo do carinho.
O tempo do nada e da tristeza, na tua ausência.

Este tempo em que te digo:
- Fala-me, não pares de falar. Ouvindo-te tenho a certeza de que sou real, e de que também tu és, fora de mim, real.

Manuel António Pina


_____________________________________________________
**És parte de mim, longe de mim... fazes-me falta

ES

Não é Música

Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens, onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.


José Agostinho Baptista

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Amo-te

Crucificaste-me a sentir,

levemente acidulada no peso das aspas que apertas na palavra.

A cada prego marcado anseio-me ao som que quero ouvir.




Apontas - peço - bates - quero - afundas - sossego.

Cravas-me o aguardo.

Avessas-me na busca,

levemente nauseada na quebra das aspas que sufocas na palavra.




Suspendes - caio - tocas - sorrio - agarras - digo.

Hesitas-me o olhar.

A cada aspa caída deslizo-me ao tom de me quereres amar.

C.G.**
_______________________________________________________
** Obrigado pela partilha das tuas palavras no meu espaço.
ES

domingo, 24 de agosto de 2008

Poesia

..............................................O passado servia-me de alimento. A memória dava me
o fogo de que eu precisava – mesmo que esse fogo ardesse
no lume brando da imaginação. As árvores, os pássaros,
os rios, eram imagens que não passavam da literatura,
como se fossem apenas as árvores do poema, os
pássaros de um canto melancólico, os rios por onde
corre o tempo da filosofia. Agora, ao lembrar me
de tudo isso, enquanto bebo devagar este copo de
solidão, não reconheço o cenário: como se um vento
tivesse varrido as árvores, um outono tivesse expulso
os pássaros, um inverno tivesse desviado os rios. O
que vejo, neste espaço em que entro pela porta que
me abriste, é mais simples do que tudo isso: tu, com
o rosto apoiado nas mãos, e os olhos que me trazem
todas as certezas do mundo. Guardo comigo, então,
a tua imagem. Vivo cada instante que me deixaste. E
no tempo que nos separa voltam a crescer árvores,
cantam outros pássaros, correm os rios do amor.


Nuno Júdice

Profano

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.
Anna Akhmátova

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sem palavras

É sabido que os comboios completos de pensamento atravessam instantaneamente as nossas cabeças, na forma de certos sentimentos, sem tradução para a linguagem humana, menos ainda para uma linguagem literária... porque muitos dos nossos sentimentos, quando traduzidos numa linguagem simples, parecem completamente sem sentido.
Essa é a razão pela qual eles nunca chegam a entrar no mundo, no entanto toda a gente os tem.
Fiodor Dostoievski

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Erros

Nada sobressai tanto, nem permanece tão firmemente fixo na memória, como algo em que tenhamos falhado.
Cícero

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Ela

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


Alberto Caeiro