sexta-feira, 10 de julho de 2009

Infinitamente Metafórico

Nada é, tudo se outra.

Fernando Pessoa

sábado, 4 de julho de 2009

Instintiva|mente

Estou nervoso, é a primeira vez que a revejo.
Sem que venha a propósito, conto segredos, faço confidências de que logo me arrependo.
A distância física é também uma distância, um afastamento interior. Falo de mim como quem fala de uma outra pessoa que julga conhecer bem, ou pelo menos, isso presume.
Não creio que G. tenha acreditado ou mesmo entendido o que lhe quis dizer. Por isso, a partir de certa altura, os segredos transformam-se em pequenas mentiras, em efabulações. Fizemos o que é mais habitual duas pessoas fazerem, preenchemos todo o tempo com palavras, enquanto os corpos de dois animais, frente a frente, se alimentavam.

Pedro Paixão

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vive o instante que passa.


Vive-o intensamente até à última
gota de sangue. É um instante
banal, nada há nele que o distinga
de mil outros instantes vividos.
E no entanto ele é o único por ser
irrepetível e isso o distingue
de qualquer outro. Porque nunca
mais ele será o mesmo nem tu que o
estás vivendo. Absorve-o todo
em ti, impregna-te dele e que ele
não seja pois em vão no dar-se-te
todo a ti. Olha o sol difícil
entre as nuvens, respira à
profundidade de ti, ouve o vento.
Escuta as vozes longínquas de
crianças, o ruído de um motor que
passa na estrada, o silêncio que
isso envolve e que fica.

E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és.

Vergílio Ferreira

sábado, 20 de junho de 2009

Profunda Maresia

dançamos à roda dum mastro,
saia em papel de seda bordada com búzios...
uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
rodopias,
e os teus amores são relembrados pela noite adiante
espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves,
junco molhado e o mar enche-se novamente de pássaros,
embarcações semelhantes a beijos que nos percorrem de alegria

Al Berto

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Despeito

Hoje a obsessão foi mais forte.
Escrever-te.
E um dia perguntei-te se tinhas guardado estas cartas.
Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo.

Rasguei-as,
naturalmente, disseste,
e porque havia de guardá-las?

Vergílio Ferreira

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Disseram-me

que não se pode quebrar o coração a alguém que já o tem partido.
E eu pensei
Pode.
Podemos sempre partir os bocadinhos do coração em bocadinhos ainda mais pequenos, amachucar ainda mais o que nos resta, como se nos tirassem o último sopro de vida.
Patrícia Reis

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Fila De Espera

Espera-se para tudo, somos feitos não de carne,
De paciência, se calhar já nascemos com um papelinho na mão.
Retire aqui o seu bilhete e aguarde a sua vez.
Aguardo a minha vez. Desde que me conheço que aguardo a minha vez.

António Lobo Antunes

ilegível

O teu corpo, luz sobre a cama.
A escuridão chegará de um momento para o outro e tu perdes-te, minha amada, sobre os lençóis num sono que enche a noite. Enroscada como um animal perigoso que ao menor toque atacaria, a luz dos olhos fechada sob as pálpebras docemente descidas. Ainda se vê, no escuro, o seu fulgor. Não sei onde está aquela que eu persigo, por onde se passeia, erguida e nítida, quais os desejos de que se alimenta e os prazeres de que se constrói. Não sei que paisagens a acolhem, que língua humana fala. O teu corpo despido, estendido a meu lado, preste o ataque.
Tão frágil que me impede de lhe tocar.
Um imenso desejo.
A noite toma-te sem fazer perguntas.

Pedro Paixão

Sublinhado

Tenho um mau presságio.
Só escreve quem não está a bem com a vida, quem está desde sempre descentrado e busca o irremediável equilíbrio nas palavras.

Pedro Paixão

terça-feira, 9 de junho de 2009

Mais Um (Dia)

Os dias longos, as noites no meio do mar.
Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo.
E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento.
Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo.
Desabituei-me dos milagres.
Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações.
Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-de-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe.
Posso especular sobre a revolução, evidentemente.
Que revolução?
A revolução, claro.
Pois é: a minha revolução não dá um passo.

Herberto Helder

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Os Meus Quartos Em Metades De Outros

Esta será, talvez, a forma mais prática e mais simples de nos conseguirmos prolongar, fazendo com que a nossa imagem permaneça viva na cabeça dos outros.
Perdemos, nisto, uma parte de nós próprios; sabemos que nos falta qualquer coisa, e que essa qualquer coisa que não conseguimos definir, e que é sem dúvida um pedaço da nossa alma, foi retalhada do nosso ser por esse olhar que nos fixou, e levou consigo a imagem em que a nossa essência encontrara a sua mais completa expressão, deixando-nos um vazio que não conseguimos definir, porque para isso precisaríamos das palavras de quem nos roubou a nós próprios.

Nuno Júdice

Capítulos

Eu decido correr a uma provável desilusão: e uma manhã recebo na alma mais uma vergastada - prova real dessa desilusão.
Era o momento de recuar.
Mas eu não recuo.
Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem saída.
E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!...
Há na minha vida um bem lamentável episódio que só se explica assim.
Aqueles que o conhecem, no momento em que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável.
Mas não era, não era.
É que eu, se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim.
Porque - coisa estranha! - sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado.
Eu sou daqueles que vão até ao fim.
Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas na vida é uma triste coisa.
Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo.
E, coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim.
Mas ninguém as compreende.
Ou tão raros...

Mário de Sá-Carneiro, in "Cartas a Fernando Pessoa

sábado, 6 de junho de 2009

As Nossas Respostas

Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.
Nuno Júdice

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A minha táctica

é olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

A minha táctica
é falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

A minha táctica
é ficar na tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

A minha táctica
é ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos

A minha estratégia
é em outras palavras
mais profunda e mais
simples

A minha estratégia
é que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

Mario Benedetti

terça-feira, 2 de junho de 2009

A nossa existência

não é mais do que um
curto-circuito de luz
entre duas eterniddades
de obscuridade.

Vladimir Nabokov

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Noite de Insónia (4:12 am)

saiu para a rua.
embrenhou-se na espessura da noite,
amou e traiu,
seduziu e deixou-se seduzir,
morreu um pouco todas as manhãs
e nunca mais regressou ao que tinha sido.

Al Berto

Noite de Insónia (4:09 am)

Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,

Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.

Fernando Pessoa

Noite de Insónia (3:23 am)

umas vezes falavas-me dos rios
e densas cicatrizes
e o sangue
procedia

outras vezes velava-te uma lâmpada
de faias e de enigmas
e a sombra
repousava

outras vezes o barro
originava
uma erupção de insónia recidiva
no gume do incêndio onde jazias

nessas vezes a água do teu riso
abria nos meus pulsos uma rosa
e eu entontecia

Carlos Nogueira Fino

Noite de Insónia (2:59 am)

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais.E então, das duas uma : partem -se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa:"o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo,esmagar o coração."

Carlos de Oliveira

Noite de Insónia (2:11 am)

As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.

É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder